FOTOAFORISMOS

jueves, 29 de noviembre de 2012

Diário anacrônico V - A biografia de Heinrisk


Contou-me Heinrisk que após ler "O amante de mulheres tristes"  decidiu autobiografar-se, porém foi incapaz de encontrar a disciplina e a dedicação (mãe da maioria das inspirações) necessárias para levar a cabo o que era seu projeto. Ainda assim concluiu que isto não seria justificativa suficiente para impedir a realização deste desejo pessoal. Veio a mim um dia atrás, e sem rodeios iniciou  a conversa tentando me convencer que eu devería fazer-lhe este favor: escrever-lhe uma autobiografia.  Já antecipando argumentos dizia que não seria difícil para mim que já tenho os elementos que lhe revelaram sua identificação com meus escritos. E sem dar a tempo a manifestar-me acrescentou a natural responsabilidade de minha parte, uma vez que foi meu fotoaforisma que motivou-o ao desejo.

foto (ar)  Lori de Almeida 
Sim...estas primeiras palavras parecem ter algo de ilógico num tom imperativo... Contra elas, de imediato meu gênio manifestou suas reservas...as reconheci nas pontas dos dedos de minhas mãos agitando-se, aquecendo-se... ao respirar ruidosamente...através de golpes de diafragma...

Minha carta de nascimento serviu-me para esclarecer muitas coisas, entre elas estas manifestações de gênio e a maneira de domá-lo. Todo gênio recusa ordens, sem embargo, está inclinado a realizar desejos. O gênio solitário, presa da individualidade, realiza sonhos íntimos e particulares; já o gênio universal deve realizar o sonho da humanidade fazendo de alguma individualidade sua presa.

Calei meu gênio íntimo...esperei que meus dedos se tranquilizassem... mentalizei o gênio universal... e quando a individualidade de Heinrisk estava baixo o domínio de minha atenção, no silencio do meu pensamento, pude identificar o apelo de suas palavras:

   - "Quero poder lembrar das coisas recordando nelas o que não senti... Assim, de uma vez por todas o destino poderá aceitar-me."

O que podería eu dizer a um homem convencido em sua procura? Titubear-lhe? Oferecer-lhe as minhas justicativas para não fazê-lo?...Poucos são hoje em dia, os homens convictos como este senhor: disse-lhe sim, me fiz e me senti responsável por organizar sua memória. São tão belos os homens convictos.

... estive a ponto de prometer-lhe um sentido inédito para seus dias anteriores...Calei meu gênio íntimo...mentalizei o gênio universal...e quando a individualidade de Heinrisk estava baixo o domínio de minha atenção, no silencio do meu pensamento...quis ver-lhe em paz com seus dias posteriores protegido da contaminação de minha vaidade pessoal.

Por honestidade lhe confessei não ser escritor e tampouco biógrafo. Deixei-lhe claro que trabalho continuamente, porém sem disciplina e sem consequência. Podería, lhe frisei em tom de gravidade,  fragmentar-lhe a vida em mil pedaços, em mil aforismos. De uma ou de outra maneira transformaría os fatos, que ele me dispusesse, em ficções de uma realidade qualquer. Revelei-lhe um escuro aspecto que costuma manifestar-se, quando nos aproximamos do esgotamento de uma narrativa: o autobiografado tem a ilusão de ter podido escolher outro caminho para encontrar-se ao destino.

Nada disso livrou-me da sorte de encontrar neste homem - tão convencido de minha responsabilidade  - a resposta seguinte:

     "Faça o que quiseres com esta vida que já não tenho em minhas mãos...Quero vê-la por outros olhos...quero lê-la em outras palavras. Quero que vc me diga o que eu não pude dizer-me...e encontre nela as novidades que não consegui enxergar."

Hoje esteve por aqui deixando-me um punhado de cartas e logo saiu...sem mesmo aceitar o copo de água que lhe ofereci...Baixo um sol escaldante lhe vi - desde uma das pequenas janelas, de onde contemplo um mundo que não me pertence - afastando-se pelo caminho varrido de calor, vento e passos que costuma nascer nestes dias de pleno verão. diante de minha casa.

1 comentario:

claudinha dijo...

uauuuu, temos aqui um escritor literário cada vez mais evoluído.
fantástico mestre Lori,